O erro, por um momento nos fragiliza. Os olhos marejados de lágrimas, o coração na mão. Dói, eu sei, mas logo em seguida nos
tornamos fortes. Olhamos pra trás e superamos. Respiro fundo e sigo. Fica
aquela estranheza, aquela sensação de perca de tempo, de impotência, de remoer
o que aconteceu, tentar entender, mas passa. O sopro daquilo que nos atinge
vem, levanta aquela poeira do nosso coração, abala aquilo que mais acreditamos, mas então vai embora. Vai embora como a brisa que sacode as folhas no verão. Vai embora. Nossa dor então se transforma em algo. O objeto da nossa dor começa a perder o sentido. Passa por
mim, mas não me penetra. Olha pra mim, mas não me atinge. Já não me entristece, não me aborrece, não me tira o sono. As vezes a decepção é
a melhor coisa que nos acontece. Ela nos poupa de continuarmos perdendo tempo.
De persistir no erro, de ficar no “eu acho”, no “eu sinto que”. Ela já corta de
uma vez as expectativas e nos mostra a verdade nua e crua. Está ai, agora você
que se vire para digeri-la. O gosto é amargo, custa a passar, mas logo vai
fazendo parte de quem somos até nos tornarmos fortes por causa dela. Depois da
decepção existe um mundo novo. Chega de ficar empacados no mesmo lugar, agora é
olhar pra frente. Existe aquele medo, claro. Aquela desesperança de que vai
acontecer tudo de novo, novas expectativas, novas decepções. Porém, é um mundo
novo e sempre existe a esperança de que agora vai ser algo diferente. Crescer é
entender que o mundo não gira em torno de você. E se há duas coisas que posso
dizer sobre a vida é que: ela continua. Como diria Caio Fernando Abreu:
"Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está ai, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada "impulso vital". Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te surpreenderás pensando algo como "estou contente outra vez".
Não importa qual seja a força da
pancada de que atingiu, nem por quem foi o golpe que te apunhalou. Tudo passa e tudo pode ser novo de novo.
Engraçado, quer dizer..não tem nada de engraçado. Não vou
contar uma piada aqui. Aliás, queria fazer você chorar. Porém meu drama cabe em
uma lata de ervilhas. Sei bem onde está o abridor de latas, só não quero
usá-lo. Temo usá-lo. Perai, que eu to falando? Bem, eu só queria aproveitar
esse momento de efêmera solidão e escrever algumas palavras. Elas me consolam e
me abraçam todas as vezes que preciso de alguma ajuda que nunca aparece. Só que
elas nunca me representam. Um texto nunca fala sobre mim. Incrivel como mesmo
depois de escrever por horas, nada, absolutamente nada do que sai parece
realmente ter saído de mim. Como um filho bastardo. De quem será que puxou
esses olhos puxados? De mim que não foi. Entende? Sei que estou errada, falta
pouco pra acertar. A atitude está ali, pronta pra ser tomada. Não quero
alcançá-la. Não quero olhar fundo nos seus olhos, me dizendo: mude. Te
avisei. Bom, talvez nada do que eu fale
aqui agora faça sentido pra você. O bom de ser eu é isso, eu não faço sentido.
Não tenho a pretensão de fazê-lo. Eu apenas quero aproveitar esse tempo. Ah, o
tempo...(pausa profunda aqui por favor). Essa impalpável parâmetro da vida que
me cerca, prende, solta, afrouxa, me sufoca, corro atrás, me escapa, me
envolve, que sinto saudades e nunca o vi. O tempo sabe ser meu inimigo e amigo.
Sabe ser sabido e me passar a perna. Sabe olhar na minha alma e dizer “você não
sabe de nada”. Sabe me fazer voar e achar que tenho todo tempo do mundo. Sei lá.
Parei pra refletir sobre o tempo essa hora da noite. Tempo que busco que almejo
e não sei se o aproveito muito bem. Mas sei que o ganho estando aqui. Rascunhando
algumas palavras soltas para que permaneçam na eternidade. Apesar de eternidade
nada mais ser do que uma hipérbole das mais absurdas do mundo. Queria esquecer
por um momento tudo que eu tenho que fazer amanhã. Eu não quero saber desse
negocio de “amanhã será um novo dia”. Não quero nem respirar fundo pra não perder
o ar deste presente. Esse presente agora que me enche de vida e que passa a
cada segundo. Tão incrível como sou diferente. Eu tinha um plano. Eu juro que
eu tinha. Agora já não tenho mais. Talvez seja a crise dos que se formam na
faculdade, mas já tenho esse sentimento há algum tempo. Ando vivendo o presente
demais. Mas eu quero viver. “Ah eu quero viver” como diria Castro Alves. Essa
coisa que eu passo agora. Essa coisa que respiro e vivo. O agora. Na verdade
queria escrever um texto grande, só pra ver se no meio dessa bagunça sai um
pouco do que eu sou. Sei que ninguém lê muito isso daqui, quiça um texto com
pouco mais de cinco linhas. Acho que ninguém tem a curiosidade de saber
exatamente quem eu sou. Aliás, nem eu mesma sei direito. Só queria que pra
alguém que tivesse interesse, ao menos se desse o trabalho de ler e prestar
atenção. E assim aprender a fazer com tudo que está o seu redor. Pra começar a
me entender, primeiro tente observar o mundo. Eu quero aproveitar. Eu quero
fotografar com meus olhos cada momento. Eu paro e fotografo, com a câmera fotográfica
da memória. E como as memórias são importantes pra mim. Tanto que nem sei
falar. Me apego a lugares, a coisas, a espaços, muito mais que até mesmo
pessoas. Me apego a ruas e cheiros, a musicas e sensações. Coisas de Karine,
como diz minha mãe. Coisas de Karine.
Sabe o que é bem minha cara? Esquecer as coisas. Tá, agora
eu pareci contraditória. Como eu memorizo tudo e esqueço de tudo? Não dá pra
explicar, se eu soubesse nem tinha um blog pra ao menos tentar me entender. Uma
coisa que é minha cara é dar bolo também. Não que eu goste, mas essa coisa de
querer agradar tudo e a todos me faz nunca dizer não. Não não tem no meu
vocabulário. Aliás, ele só aparece (e como aparece) se for pra arriscar a fazer
algo no campo amoroso. Ai ele vem de cachoeira. “não vamos não” “acho que não é
uma boa” “não somos amigos?” Bom pra isso ai o não nunca falta. Começo a ficar
triste. Começo a adoecer, é só entrar nesse campo que começo a esmorecer. Bom,
esse texto começou nem sei qual era o propósito mesmo, sei que eu não queria
falar de mim. Mas como tudo acaba girando na minha cabeça em torno de mim,
mesmo que eu negue isso, acabou que virou sobre mim mesmo. Aliás, não tinha
como deixar de falar sobre mim. Nada é sobre os outros, nada. Freud talvez me
explicaria. Enquanto não conto com ele, basta a você leitor ( se é que você
existe) a ser meu psicanalista Sei que é um papel que ninguém deveria tomar (não
remunerado) mas infelizmente você teve a infelicidade de cair nessa página e ,
mais infelicidade ainda, neste texto. Sei que parece meio louco. Talvez não fez
sentido, mas você ajudou. Ah, se ajudou. Obrigada.
Onde Deus esteve na bomba de Hiroshima, onde esteve quando o Césio 137 se espalhou, nos atentatos terroristas, nas guerras mundiais? Bom, uma boa limonada explica bem isso. Uma vez li a frase: "Quando a vida de te der limões, faça limonada"
Ora, quando a li sempre achei legal pensar que algo tão amargo pode virar algo doce. Já imaginava aquela limonada deliciosa descendo pela garganta. Lembrava como eu gostava de limonada e como detestava colocar um limão azedo na boca. Achava legal, uma dessas frases que a gente coloca nas redes sociais mas nunca para mesmo pra refletir. O que realmente eu quero dizer é que essa frase tem mais poder do que possa parecer. Ela nos diz que o poder de transformar algo ruim em algo bom está em nossas mãos.
Há quem pergunte: Onde Deus está?
Em um mundo sem cor, Deus nos dá tinta.
Em um mundo escuro, ele nos dá a lâmpada.
Quando queremos chegar a algum lugar, ele nos dá a escada.
Ele próprio diz que é o caminho, mas somos nós que temos que trilhar.
Então quando perguntarem onde Deus está nas situações mais adversas, tente se perguntar onde você esteve quando elas aconteceram.
Quando te perguntarem porque você não tem sucesso em algo que quer, tente se perguntar como você tem usado aquilo que Deus já te deu.
Um novo ano se inicia e quando ele te der caneta, devolva poesia.
Eu não queria ter acertado tanto. Eu queria voltar atrás e errar. Eu queria ter errado. Eu queria ter sido errada. Eu queria ter vivido todas aquelas loucuras que eu não vivi. Eu queria ter pulado de paraquedas enquanto eu podia. Eu queria ter vivido um amor que eu nem cheguei a sonhar. Eu queria ter me sucumbido. Eu queria ter chorado mais. Eu queria ter quebrado a cara. Eu queria me arrepender do fundo da alma. Eu queria sofrer por amor e não receber ligações. Eu queria ter querido morrer. Eu queria sentir cada pedaço meu desfalecer. Eu queria ter errado duas vezes e ter cometido o mesmo erro outra vez. Eu queria ter agido pela emoção. Eu queria ter te ligado mesmo parecendo fraca. Eu queria ter dado minha cara a tapa, queria dar murro em ponta de faca. Eu queria ter feito besteiras, dizer loucuras infames. Queria ter sido xingada, queria ver nome morrer na praça. Eu queria não agradar tanto. Eu queria ter sido uma adolescente que fugiu de casa. Eu queria adoecer de amor. Eu queria me arrepender até sentir dor. Eu queria olhar meu rosto no espelho e me arrepender. Eu queria perder o fôlego. Eu queria ter dado uma chance pra todas as loucuras inconsequentes que eu não vivi. Eu queria saber o que é querer morrer por alguém. Eu queria ter errado, e foi nisso que eu errei.
Ao convidar a humildade para entrar na sua vida, tenha cuidado. Ela tem a mania de desmistificar tudo aquilo que você acha que é. Faz você perceber que não está sozinho; há pessoas bem melhores, em todos os aspectos, que você. Faz você olhar para si mesmo e entender que nada disso que você tentou aparentar ser, é aquilo que você é. Faz você admitir seus piores defeitos e traumas. E se aceitar assim, humano como é. E isso talvez seja um dos maiores desafios que você possa enfrentar. Faz então, perceber que você é feito de carne e osso. Limitado. Sim meu amigo, tome muito cuidado. Tome cuidado principalmente quando ela entrar e você perceber que ela está lá. Aconchegada em algum canto do seu ser. Sim, você vai saber, mas então já não mais nada restará. Pois no momento que você pensa que a tem, ela já não está mais lá.
As vezes acho que tenho coração demais e outras coração de
menos. Acho que me cobro demais tentando agradar as pessoas e tudo parece um incrível
desapontamento. Sinto que estou desapontando tudo e todos a todo o momento.
Talvez eu queria agradar sempre. Mas a sensação que eu tenho que ninguém está
satisfeito. Sempre sou distante, o erro sempre foi meu. Nunca esta perfeito,
nada é cem por ento. Parece que o meu fracasso é todo mundo conseguir ter uma vida sociável normal
e eu não. Sou estranha. Sou louca e quem
não tem um pouco de loucura em alguma parte da vida? Acho que minha falha deve
ser essa. No relacionar. Simplesmente é uma tarefas das mais árduas pra mim.
Receber carinho e afeto principalmente. Ligações. Ah, ligações. Por favor, quer
me agradar não me ligue.l não mantenha contato. E se estou te amando com
certeza não estou mantendo contato. Se não te ligo, provavelmente te amo. Se
sou fria, provavelmente você vale muito pra minha vida. Não sei o que ocorre,
mas existe algo nos relacionamentos que me sufocam, me atrapalham. Quase uma
inanição. Enchem todo o espaço da minha vida. Quando estou em um relacionamento
quero sair, quero ir, quero voar, me deixe respirar pelo amor de Deus. Não me
ligue, por favor. Não me mande mensagens, não, não. Desapegue de mim por um momento. Deixe me
respirar. Não mantenha contato, não mande postais. Deixe-me livre, mas me ame completamente.
Seja fiel a mim como da ultima vez que nos vimos.
Talvez o tempo não passe pra mim. O tempo talvez pra mim
seja sim, realmente, relativo. É como se a pessoa me deixasse do jeito que ela
deixou. Nada muda pra mim. Mas pras pessoas, ah..pras pessoas. O tempo é uma catástrofe,
um furacão de mudanças. Tudo muda se o tempo passa. Mas eu não. Eu o congelo.
Eu o aprisiono e nada faz diferença.
Principalmente no que se trata de relações com as pessoas. Parece que deixei as
pessoas no lugar em que as deixei. O sentimento é o mesmo. E sei que pras
pessoas não é. Não é mesmo. Venho sofrendo reclamações constantes, de umas
vozes afônicas que de vez em quando dão um leve farfalhar de pequenas
indignações, mas nada muito catastrófico. Isso incomoda mesmo na relação a
dois. Homem e mulher mesmo. Não consigo. Preciso de distancia. Preciso de
espaço. Preciso como o ar que eu respiro.
Talvez eu não tenha maturidade o suficiente pra encarar as
pessoas e que elas precisam de afeto. Talvez eu não consiga administrar muitas
coisas da minha vida ao mesmo tempo. Talvez eu não achei alguém que eu ame de
verdade pra doar meu tempo. Só sei que é um sacrifício enorme, pegar o telefone
e atender. Responder, dar satistfação, dizer bom dia, boa tarde e boa noite.
Pra que isso? Talvez eu não sinta necessidade disso e preciso de alguém que entenda
isso. Talvez eu ame tanto as pessoas que
pra mim não importa se ela me liga ou não, minhas relações nunca mudam. Talvez
eu tenha medo de me relacionar de verdade, plenamente. Talvez seja só um traço
da minha personalidade, ou talvez eu realmente precise de cura. No meu mundo isso não chama desapego, indiferença ou
frieza. Isso pra mim é outra coisa. Gosto
de ver o tempo passar e passar.
O tempo talvez seja meu pior inimigo. Gosto de aprisiona-lo.
Amo relembrar minhas memórias. Tenho um apego excessivo a lugares. Lugares.
Quantas vezes já me peguei indo e voltando a lugares que passei. Pareço uma
psicopata atrás de memórias. A ponto de ficar olhando pra um lugar nostálgico por
horas. A ponto de querer reviver e tremer por relembrar do que já passei. É de
perto eu não sou normal. Nem um pouco. E isso é um desabafo. Talvez eu seja tão
louca que preciso disso pra manter minha normalidade. É isso. Chegou ao ponto
de que nada que eu acrescentar vai mudar alguma coisa. Pronto falei. Pronto
falhei.
O que fizeram com os meus dias? Com essas destras horas e cada ínfimo minuto que ela continha?
Quem deixou os ponteiros girarem tão velozes? Quem espalhou os grãos da ampulheta e os fizeram cair tão depressa? Quem permitiu que luas e sois beijassem a terra tantas vezes assim?
Cadê o tempo que eu contava tão amigável outro dia? Cadê ele que comigo vinha brincar?
O que fizeram do tempo que eu nem fiz questão de reparar? O que fizeram do tempo que não deu tempo, de nem ao menos, amar?
O que fizeram da vida que me deram pra eu ter algum tempo de sonhar? Porque o tempo passou por mim e ninguém fez questão de me contar? Porque cada dia ele segura tão gentilmente em minha mão e todo dia o vejo me deixar?
Aquela sequência de números mortificados sempre me intrigaram. Toda vez que eu coloco uma data em cima da página que escrevo, há um frio. Uma lâmina que corta o tempo e prende na memória dizendo: você nunca colocará esses mesmos números outra vez. Nesse espaço ínfimo do tempo, existe esse pesar, essa reflexão de que cada instante nunca se repetirá outra vez.
Será que eu deveria estar aqui?Será que eu estou onde devo estar?
O que vou fazer? O que devo fazer?
Será que mãos esperam a minha chegada?
Será que olhos precisam que eu retire as vendas?
As vezes olho pra tras e percebo que por onde eu caminhei
em nada se compara ao que ainda tenho a trilhar.
Nem mesmo minha sinceridade me soa sincera (pra ser sincera dessa vez)
O peso das circunstancias pesam a cada dia que se encerra
Eu preciso me inspirar outra vez
Eu preciso respirar um ar novo do seu amor
Eu preciso renascer e ver através
De toda a angustia que me pertuba, de toda dor
Eu quero olhar para a criança e o idoso
Senhor, me dê apenas um pouco
Dá tua lucidez
Chega de viver pra mim mesma todos os dias
Chega de ter meu coração voltado
Somente para minha correria
Chega de buscar coisas tão futeis e que tem um fim
Estou tão acomodada no que tenho que fazer
Que não estou parando pra fazer
Estou tão cansada sentindo o meu cansar
Que não estou sendo quem eu quero ser.
Alguém puxe o freio desse trem. Segure firme na bainha. Enquanto minha cabeça gira na órbita, ondes os gritos são silenciados e já não há nada a fazer nem sentir.
Alguém faça os trilhos entrarem no lugar. Faça eles endireitarem nessa via torta. Ativem os faróis dessas luzes tão difusas.
Alguém segure o volante, chame a emergência, segure a criança. Alguém acalante os idosos, grite pelos que não conseguem. Pare pra pensar e pra chorar.
Alguém faça esse trem parar. Faça-o ranger, mas que pare. Pra respirar, pra respirar, pra respirar.
Quero a alegria de sorrir com minha melancolia. Quero curtir cada etapa desse leve e efêmero pesar, para então no correr da balança e nuanças, sua carga assim ficar.
Quero, porém, a decência em chorar, sem pressa nem desculpas em me justificar. Quero o canto alegre e triste da cigarra com uma pitada de sabiá.
Quero a vida na palma e em alma, mas também a quero longe pra poder voltar. Quero alcançar-la por completo, mas quero perde-la para o alto e pro incerto, pra então a valorizar.
Quero ter a audácia de ser alegre mesmo triste, pois esse canto é o mais belo que existe, pra quem sabe esperar.
Quero ter a pachorra de ser livre mesmo inteira e completamente comprometida e pronta a permanecer e também ficar.
Quero essa tristeza ao olhar essas mal traçadas linhas, sentindo a textura da folha, sem pressa em fazer a página virar.
Quero refletir e pensar, em desabotoar e sucumbir. Quero implodir e inundar. Quero construir e secar.
Quero voar em meio ao fogo, moldando então minhas arestas desse ouro torto. Quero o sabor do vento mesmo sabendo que ele bate forte, sem qualquer constrangimento.
Quero vida como ela é, no seu choro em alma e na sua prosa alegre mesmo triste. Na sua bela melancolia.
Meu avô tinha uma fazenda e nela tinha um peão chamado Chico. Um dia eu perguntei a ele: "Chico, quantas horas?" Ele olhou pro céu e disse "12:15". Corri o mais rápido que pude pra o relógio mais perto e (pra minha surpresa) eram praticamente a hora que Chico disse. Eu achei a pessoa mais inteligente do mundo. Hoje, eu continuo achando. Existem conhecimentos que não estão em bibliotecas e muito menos são ensinados em universidades. Os livros e filmes que você idolatra e faz questão de mostrar em todas as redes sociais, não te fazem mais inteligentes. Aliás, se você acha que é superior por ler tais livros, não entendeu nada do que é sabedoria. A Intelectualidade pode ser seu deus e a busca por ela pode ser seu vício, mas eu, prefiro ser igual ao Chico do que ter livros e títulos mofando na minha estante e o racionalismo secando meu coração.
Eu olho pro céu e vejo a chuva a nascer. Seu cheiro e sua presença solta no ar. Então nesse momento sei que os céus realmente proclamam a Sua glória, e o firmamento anuncia as obras das Suas mãos.
É tudo tão grandioso. Mas suficientemente pequeno pra caber em cada gesto e olhar amigo ou aqui dentro do meu coração;
Eu olho pro céu e tenho tanto a agradecer a Ti. Eu tenho tanto a lhe falar. E sei que nisso eu vou falhar. Mas Seu amor ainda sim vai me constranger a tentar.
Parece-me tanta indelicadeza começar um texto pensando em Ti. Parece que tudo que eu fizer ou disser, nenhuma ação ou emoção irá demonstrar tudo que Tu és pra mim.
Eu olho pro céu e quero voar. Continuo a sentir saudades de tudo aquilo que não vi. Planos que só o Senhor sabe e sonhou.
Eu olho pro céu e me sinto como todas essas palavras fossem pequenas demais. Que meu ser e minha existência, estão na infima parte de tudo que está pra acontecer.
Eu olho pro céu e sei que mesmo assim, o amor me cerca. Seu precioso amor. Seu imenso amor. Aquele capaz de dar a vida. De fazer e obstruir toda e qualquer corrente. Aquele que abre portas que não existiam. Que me chamou pra conversar tão amigável um dia. Tão glorioso dia que me encontrei com o Senhor.
Eu olho pro céu e meu maior desejo é estar ai. Meu desejo é estar ai. Todo meu ser tem saudades de estar ai.
E que eu possa ser plena aqui. Que eu possa ser digna de estar ai. Que eu possa desfrutar da plenitude da sua glória.Que minhas raízes sejam plantadas junto aos ribeiros de água.Que eu combata o bom combate e a missão que a mim foi proposta. Que tudo seja através de Você e Para você. Aquele que não negou seu próprio filho. Aquele fez de mim, uma solitária, habitar em família. Aquele que tirou meus pés da lama e os colocou numa rocha firme. Aquele que rasgou o véu e me deu graça sobre graça. À Você toda honra e toda Glória.
Enquanto eu viver, quero continuar olhando pro céu.
Então é isso? A vida é isso? Francamente, eu esperava muito mais. Eu corri atrás de todos aqueles diplomas pra isso? Caminhei, corri, me estressei. Peguei incontáveis ônibus, corri para chegar na hora. Bati meu ponto, corri por entre os carros pra chegar na hora. Tantos dribles nos horários, tanto stress e choros. Lágrimas que pareciam nunca secar. Tantos puxões de orelha por alguns centavos a mais na minha conta pra isso?
Esse é o fim? Estudei tantos capítulos. As palavras até se confundiam. Tantas cópias de livros, noites em claro. Cafés e olhos vermelhos pelo sono. Noites e noites em claro. A pressão do vestibular, o dinheiro gasto em tantos cursos, pós e mestrado. Pra chegar até aqui? Porque escrevi tanto? Entreguei tantos currículos? Porque fui guardando cada centavo numa poupança pra comprar aquele velho carro que eu tinha?
Onde estão as coisas que eu comprei? Pra que me serve meus relógios, sapatos nesse lugar? Acho que daqui ninguém vai ver minhas roupas de marca. Onde eu deixei meu apartamento que com tanto custo montei? Meus móveis, meus quadros, minha vida? Onde foi parar? Porque passei minha vida inteira correndo atrás de tanta coisa, pra me restar apenas isso? Apenas essa terra sobre esse caixão.
Passos em direção ao nada. Pés que não são mais guiados: são levados. Duas almas andarilhas presas ao corpo. Já sabiam o caminho de casa. Cambaleavam preambulantes. Rumo ao lugar comum de sempre.
Vida escorrendo. Liquido impalpável sobre as mãos. Sangue deixando de correr nas veias. Um ato quase lisérgico, ponto de bala, de partida, piloto automático. Sinal vermelho, mesmo sem sinal vital.
Olhos ardendo pelo cansaço. O dia passava devagar sob o sol que queimava sua pele. Era mais um dia. Azul como sempre. Nem preto, nem branco.Cinza. Escaldante pelo asfalto, pele e suor. As nuvens pairavaram na imensidão azul e não havia um vento que as empurrassem Teimavam em ficar onde estavam, cambaleantes assim como eu. Nem mesmo a força de algum pensamento as empurravam. Sufocadas. Sufocantes.
Rádio ligado. Telefones. Mãos. Muitas mãos. Calejadas, tímidas. Que seguravam a bolsa. Aparava o suor. Pulsos que giravam para conferir as horas. Braços cruzados como escudos. Balançantes ou sufocados dentro do bolso. Carregando sacolas, balançando ao vento, segurando a criança.
Era mais um dia.
Era mais um dia.
Era mais um dia.
Era mais um dia.
Eras e eras dentro das horas. Num ir e vir infinito. Vidas flutuantes. Horas latejavam. O abrir e fechar de olhos. O calor e frieza dos esbarrões continuos e contidos. Vergonha, leve constrangimento. Olhares cansados e preocupados, indiferentes, tão distantes. Ônibus lotados de almas tão vazias.
Mentes alheias e exorbitantes no ponto de ônibus. Apenas um ponto. Ponto de intersecção. Chegamos juntos aquele ponto. Sob o mesmo ponto do tempo e do espaço.
No pensamento fugaz e vulgar de cada um. Na cabine secreta, na prisão de você. O sucumbir. A implosão do eu em silêncio.
Esses versos contínuos, de uma das musicas mais conhecidas da banda irlandesa U2, ecoavam e me desconfortavam toda vez que os escutava. Apesar da musica indagar sobre a busca de Deus nas coisas matérias e físicas desse mundo, e evidentemente sem sucesso..o compositor fala que conhece a Cristo. E isso me atormentava. O que você ainda procura Bono? Você é cristão, você já achou. O que ainda há pra se procurar? O que eu ainda procuro?
Existe um mito, grandessíssimo e consolidado de uma alegria interrupta e imaculada que o cristão tem. Passamos de uma vida pra outra e nessa outra vida seremos felizes, sem duvidas, inquietações ou anseios. Apesar de crer que temos consciência e gravamos bem as palavras de que “no mundo teremos aflições” ainda nos culpamos quando a complexidade e as divagações da vida vêem nos visitar. Não nos damos o direito de nos sentirmos tristes, de ter duvidas ou sentirmos alguma ausência, algo que nos falta.
Uma viajante sente saudades da sua terra Natal. A cidade que ele está pode conter tudo que ele precise: um bom lugar pra passear, amigos, sua família poderá vir visitá-lo todos finais de semana, mas há algo em nosso lar que o torna especial. Nós cristãos, como viajantes por entre esse mundo, temos o direito a essa tristeza, a essa saudade do nosso lar. Apesar de Cristo compartilhar sua glória conosco ainda na Terra, esperamos ansiosos pelo dia que teremos a plenitude da sua glória, quando o veremos face a face.
You broke the bonds and you loosed the chains(Você quebrou os laços, soltou as correntes)
You carried the cross (Você carregou a cruz)
And my shame (E a minha vergonha)
You know I believe it (Você sabe que eu acredito nisso)
But I still haven't found (Mas eu ainda não encontrei)
What I'm looking for (O que estou procurando)
Buscamos em tantas coisas pra suprir essa ausência e quando a achamos e percebemos que não há encontramos nesse mundo e a suprimos no conforto de Cristo e no seu amor, ainda sim temos essa linha de saudade e esperança que nos traz a uma inevitável e saudável melancolia. I still haven’t found what I’m looking for, é um grito, uma súplica. Que em algum momento já tivemos na nossa vida e que ainda temos. Procuramos tanto, buscamos e nos empenhamos. E essa efemeridade da vida, essa incessante busca por coisas fúteis, mas necessárias pra nossa sobrevivência na Terra..nos alcançam e nos deprimem.
Os versículos ilustram bem o que eu queria falar, e talvez não consegui dizer:
"Por isso não desanimamos. Embora exteriormente estejamos a desgastar-nos, interiormente estamos sendo renovados dia após dia, pois os nossos sofrimentos leves e momentâneos estão produzindo para nós uma glória eterna que pesa mais que todos eles. Assim, fixamos os olhos, não naquilo que se vê, mas no que não se vê, pois o que se vê é transitório, mas o que não se vê é eterno." 2Co.
"Porque agora vemospor espelho embaçado, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido."I Coríntios 13:12 Mais do que conhece-lo, vamos nos conhecer. Por enquanto, continuamos com essa busca, pelo sentido do nosso sentir, do que somos. Busca pela vida e tudo que ela carrega.